Escritas coletivas

Proposta de produção textual coletiva 1:
Apontamentos sobre o texto Trois notes sur la théorie des discours, de Louis Althusser, discutido na reunião do Grupo LEDI em 10/02/2017

           O texto de Althusser foi originalmente publicado em 1966, tendo nascido de uma proposta de um grupo de trabalho constituído em torno de um “problema teórico fundamental” nas ciências humanas, para além das delimitações impostas pelas disciplinas. Sua reflexão desenvolve-se na base de uma divisão entre “teoria geral” e “teoria regional”, indicando um processo de questionamentos teóricos sobre um novo campo de conhecimento que encontrava então resistência em meio ao grupo de intelectuais na França, constituído majoritariamente por marxistas. Essa posição de recusa à psicanálise naquele contexto parece provocar Althusser a um esforço por inserir esse novo campo em discursos de cientificidade que pudessem, de alguma forma, legitimar os novos objetos de conhecimento, na convergência do que ele define como uma “teoria geral”, defendendo, assim, a necessidade de pensar o objeto teórico da psicanálise (o inconsciente) no campo da objetividade científica, instituindo a generalidade de uma teoria geral.
           Na carta de envio de seu texto àquele grupo de trabalho que acabava de se constituir, Althusser apresenta suas três notas sobre a teoria do discurso como uma “reflexão sobre o estatuto do discurso inconsciente, e sua articulação sobre o discurso ideológico” (p. 117). Reitera também a necessidade de pensar a categoria de sujeito como “fundamental no discurso ideológico” (p. 117) e, em contrapartida, questiona outras categorias de sujeito, uma vez que essas estariam articuladas justamente sobre o que o filósofo então denominava “discurso ideológico”. Isso porque, segundo Althusser, todo discurso produz algum efeito de subjetividade, isto é, algum tipo de sujeito que é efeito desse mesmo discurso que o produz. Apesar de isso ser comum a todo discurso, cada discurso produz seu próprio e distinto efeito-sujeito (p.48). Para Althusser, uma teoria do significante teria de dar conta de estabelecer as diferentes características de cada efeito-sujeito produzido por diferentes discursos.
           Na nota 1 (“Sobre a psicanálise”, p. 119), Althusser traz reflexões sobre a problemática da posição da psicanálise quanto à ausência de uma teoria geral, o que impede “uma prova objetiva de sua cientificidade, ou seja, não está em condições de definir (ou de situar) diferencialmente seu objeto teórico no campo da objetividade teórica” (p. 122). Diante de tal problemática, o autor cita dois tipos de tentativas de responder a essa questão: a) “tentativas aberrantes”, que caracteriza como redutoras, uma vez que tentam diferenciar o objeto teórico da psicanálise (o inconsciente) a partir de objetos teóricos elaborados por outras disciplinas (biologia, psicologia, filosofia, etc.); b) “tentativas interessantes”, que situam o objeto teórico da psicanálise em relação diferencial, não redutora, com objetos teóricos de outras disciplinas, a fim de construir “um terceiro lugar teórico (a teoria geral), de natureza totalmente diferente” (p. 127). Segundo Althusser, tanto Freud quanto Lacan são exemplos desse segundo tipo de tentativa de constituição de uma teoria geral da psicanálise, tomando como ponto de partida a busca por uma relação diferencial com objetos teóricos de outras disciplinas, em um movimento de aproximação e de questionamento de suas (de)limitações.
           Ao descrever e analisar o “caráter do inconsciente” (p. 129), Althusser lista uma série de características desse objeto teórico, buscando defini-lo, num movimento de possibilidades de construção de uma teoria geral da psicanálise. Destacamos, a seguir, as seguintes caracterizações: o modo de manifestação do inconsciente como efeito; a estruturação do inconsciente como linguagem, estrutura cujos elementos são significantes; a subjetividade como efeito do funcionamento do discurso, via interpelação ideológica. A interpelação ideológica “permite ao sujeito interpelado reconhecer-se e reconhecer seu lugar no discurso, ao mesmo tempo que lhe garante que, com efeito, é ele o interpelado, e que é interpelado por alguém, outro Sujeito, este Nome de todos os nomes [...] é o centro do qual emana toda interpelação, o centro de toda garantia e ao mesmo tempo, de toda resposta.” (p. 137). Daí a possibilidade de pensar o sujeito como efeito desse processo de articulação entre inconsciente e ideologia.
    Observamos, nesse movimento de construção teórica empreendido por Althusser, pontos de convergência com a proposta posteriormente colocada por Michel Pêcheux, especialmente no que tange à compreensão do funcionamento discursivo na articulação entre inconsciente e ideologia – mesmo considerando que não sejam da mesma ordem, como enfatiza Pêcheux. Assim como Althusser, Pêcheux pensa essa articulação justamente a partir do modo de funcionamento da ideologia, ou seja, o da interpelação, que promove o recrutamento do sujeito por meio de sua identificação – ao recrutar um indivíduo, ela constitui um sujeito.
Após desenvolver longamente suas reflexões sobre a relação entre o inconsciente e a ideologia na nota 1 (p. 119-154), Althusser apresenta, na nota 2 (155-161), considerações bem mais breves sobre sua proposta de pensar o “inconsciente como discurso específico”, fazendo objeção à concepção lacaniana do “inconsciente estruturado como uma linguagem”. No contexto teórico em que Althusser se encontrava inserido, pensar o “inconsciente como discurso específico” poderia trazer mais força à sua hipótese de articulação entre inconsciente e ideologia – articulação que viria a constituir, posteriormente, a base da teoria do discurso empreendida por Michel Pêcheux.
Na nota 3 (p. 162-170), Althusser retoma o que foi exposto nas notas 1 e 2, insistindo na necessidade de esclarecimentos adicionais sobre suas reflexões. É nessa última nota que depreendemos o caráter coletivo de sua proposta de trabalho teórico, bem como o campo de incertezas e de questionamentos que seu posicionamento (lhe) permitia adentrar, a fim de propor uma “teoria dos discursos” (p. 162). E por que uma teoria dos discursos? Althusser avança a hipótese de que uma tal teoria permitiria compreender ”as leis específicas que definem cada discurso” (p. 169) para conseguir perscrutar, talvez, as “leis gerais de todo discurso”.

Participantes da reunião: Marisa Grigoletto, Daniella Menezes, Maria Dolores Wirts Braga, Laura Fortes, Patrícia Nero, Inês Confuorto

Referências

ALTHUSSER, L. Trois notes sur la théorie des discours. In : ___. Écrits sur la psychanalyse. Freud et Lacan. Paris : Éditions STOCK/IMEC, 1993, p. 117-170.



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