2012 - 2013
02 de março de 2012
Com o objetivo de retomarmos alguns dos principais conceitos trabalhados por Michel Foucault, fizemos a leitura de dois textos: Ethics and subjectivity: practices of self-governance in the late lectures of Michel Foucault, de Nancy Luxon (http://ptx.sagepub.com/cgi/content/abstract/36/3/377) e Foucault and power revisited, de Nathan Widder (http://ept.sagepub.com/cgi/content/abstract/3/4/411). Em seu texto, Nancy Luxon retoma o conceito grego de parrhesía (antiga prática ético-discursiva em que falando-se livremente, falava-se a verdade) trabalhado por Foucault como o conjunto de práticas quecondicionam os parâmetros do auto desenvolvimento individual(LUXON, p.379). Luxon argumenta a favor da prática de parrhesía como um modelo educacional, que, ao invés de incentivar o indivíduo a ousar saber, incentiva-o ousar agir. Nathan Widder, discutindo a questão do poder em Foucault, argumenta que as relações de poder operam de modo dispersivo e que o poder nada mais é do que o próprio poder de dispersão. O autor defende, também, que a oposição entre poder e resistência é uma interpretação errada dos ensinamentos de Foucault por não considerar a dinâmica dispersiva das relações de poder. A partir dessa dinâmica, Widder define identidade como a ilusão de ótica construída a partir de relações de poder atravessadas por resistências e rejeita a definição de identidade como substância (des)construída pelo poder e pela resistência.
Texto: Dolores
Revisão: Júnia
08 de agosto de 2012
Em Discurso e
Ideologia: bases para uma pesquisa (In: Orlandi, Eni P. (org). Gestos de leitura: da historia no
discurso, 2010), D. Maldidier, Cl. Normand, R. Robin buscam construir uma
teoria da ideologia e, para tanto, retomam algumas abordagens teóricas para
refletir sobre a relação discurso e ideologia. Ao tecer considerações sobre a
linguística do discurso (Benveniste, Ducrot, entre outros), os autores levantam
a insuficiência dessa abordagem pelo fato de que esta considera apenas a
oposição língua X fala. Além disso, embora haja nestas linhas teóricas referências
ao sujeito falante e à enunciação, não são consideradas as determinações
ideológicas, sociais e históricas que
permeiam o discurso uma vez que a perspectiva adotava é a de que a fala seja
apenas uma manifestação das formas linguísticas para expressar uma
ideia/pensamento. Em oposição a essas abordagens linguísticas, os autores
apresentam as ideias defendidas por Foucault, que concebe a enunciação como
resultado dos processos de subjetivação via discurso. Assim, o sujeito que
enuncia não é aquele livre para enunciar, pois está ancorado em bases
ideológicas, sociais e históricas em um dado momento. Alem das reflexões de
Foucault sobre enunciado e formação discursiva, os autores apresentam as
contribuições de J. Kristeva (teoria do sujeito e das ideologias) e Pêcheux
(formações ideológicas, sujeito, ideologia e formações discursivas).
No texto O
discurso político e a guerra da Argélia (In: Orlandi, Eni P. (org). Gestos de leitura: da historia no
discurso, 2010), Maldidier apresenta uma análise sobre as orientações
ideológicas que permeavam o discurso da mídia imprensa francesas sobre a Guerra
da Argélia. Para tanto, foram analisadas as construções sintáticas de textos de
jornais mais representativos da França. Buscava-se, com isso, identificar o
comportamento ideológico de cada jornal, pois se partia da hipótese de que “a
distribuição das palavras no texto implica um modelo ideológico subjacente”
(p.147). Entretanto, ao longo de sua análise, a autora pontua que se, por um
lado o estudo linguístico pode contribuir para a compreensão do funcionamento
ideológico do texto, por outro há a necessidade de atrelar a este um estudo uma
parceria interdisciplinar com a história para dar andamento à apreensão do
significado social da ideologia.
No artigo Efeitos
do arquivo. A análise do discurso no lado da história (In: Orlandi, Eni P. (org). Gestos de leitura: da historia no discurso, 2010), J. Guilhaumou e D.
Maldidier tecem considerações sobre o papel do arquivo como elemento para
análise discursiva. Ao longo de sua discussão, os autores enfatizam os
benefícios que o arquivo pode trazer à análise quando tomado não como algo
fechado e já dado, mas como um conjunto de enunciados que trazem à tona
dispositivos e configurações significativas. Nesse sentido, para os autores,
torna-se produtivo observar os enunciados que circularam em uma dada época e
como esses estabelecem relações com a história. Assim, os autores elegeram o
período da Revolução Francesa para observar como o tema da subsistência foi
incorporado aos enunciados de reivindicação política. Constatou-se a circulação
de dois enunciados: Pão e liberdade
durante o processo revolucionário e Pão e
ferro em 1793. Os autores observaram que o segundo enunciado funcionou de
forma distinta do primeiro, apesar de sua semelhança sintática, marcada pela
conjunção “e”. Considerando as condições históricas em que os enunciados foram
produzidos, os sentidos que emanam dos enunciados revelam momentos distintos do
processo revolucionário: enquanto Pão e liberdade
representou a palavra de ordem de reivindicação de direitos à liberdade, Pão e ferro revela a reivindicação de
uma comunidade que luta pela permanência de seus direitos.
Texto: Ana Paula Faria
Revisão: Laura Fortes
17 de agosto de 2012
Discutimos três textos do livro Gestos de Leitura, organizado por E. P. Orlandi: “Elementos para uma história da análise do discurso na França”, de D. Maldidier (1990); “A história não existe?”, de P. Henry (1984); e “Ler o arquivo hoje”, de M. Pêcheux (1982). No primeiro texto, Maldidier faz uma reconstituição do nascimento do projeto da análise do discurso a partir de sua “dupla fundação” (1978-1970) por Jean Dubois e Michel Pêcheux. Segundo Maldidier, essa nova proposta teórica significou uma importante ruptura epistemológica com o estruturalismo, enquadrando-se em uma teoria não subjetivista do sujeito, ou seja, a questão da enunciação deslocou-se da problemática psicologizante do “sujeito falante” – preconizada predominantemente no campo da linguística estruturalista da época – para a noção de sujeito descentrado, constituído de sentidos produzidos historicamente. No segundo texto, Henry traz uma reflexão que interessa a Análise do Discurso porque desconstrói o historicismo, uma leitura da história pressuposta pelas ciências humanas e sociais segundo a qual a história é tida como um processo com um fim definido. A partir dessa reflexão, Henry faz uma análise epistemológica de uma disciplina das ciências humanas, a psicologia experimental – que se volta para a ideia de sujeito como o centro – relacionando-a com a questão da língua(gem), que, no fim do século XIX, começava a se tornar um elemento importante na constituição de um imaginário de identidade nacional e cultural no processo histórico-político de formação dos Estados Nacionais. No terceiro texto, Pêcheux aborda três questões importantes do ponto de vista teórico da análise do discurso: a leitura como interpretação; a não existência de uma língua perfeita e sem ambiguidade; e a relação entre língua e discursividade. Essas questões estão na base de sua reflexão sobre o arquivo, que, segundo ele, constitui o “campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão” sobre o qual incidem gestos de leitura produzidos por discursividades em circulação em determinada época. Pêcheux destaca duas vertentes predominantes da leitura do arquivo: a dos literatos, que detêm “o direito de produzir leituras originais”, e a dos cientistas, que sustentam e reproduzem tais leituras. Essas vertentes ignoram a materialidade específica da língua, produzindo “uma normalização asséptica da leitura e do pensamento” e apagando a historicidade de sua memória. Na visão discursiva defendida por Pêcheux, para ler o arquivo é preciso estabelecer uma relação entre língua e discursividade, criando espaços de interpretação que dêem visibilidade à pluralidade dos sentidos.
Texto: Laura Fortes
Revisão: Ana Paula Pitombeira
Data: 08/09/12
31 de agosto de 2012
ORLANDI, E. P. (org.) et.
al. Gestos
de Leitura: da história no discurso. 3. ed. Campinas: Editora da UNICAMP,
2010. p. 99-115.
Capítulo
V – Lexicografia e análise de enunciado (DUBOIS, J., 1968)
Neste
texto, J. Dubois (1968) propõe um método para fazer a análise de enunciados, a
partir de uma rigorosa repartição de enunciados de base juntamente com uma análise
lexical. Parte do modelo de competência e performance,
fundado por Chomsky (Gramática Gerativa), porém deslocando-o para uma análise que
já não se centra apenas na língua, com suas estruturas morfológicas, sintáticas
e semânticas, mas visando a construir uma estrutura invariante em relação com
um conjunto de modelos socioculturais. Ou seja, apresenta o desejo de propor
categorias lexicais fixas, que resultam em sentidos fixos. Essa redução concebe
o sentido como fixo, pois não considera o sujeito da enunciação atravessado por
questões históricas e ideológicas em sua relação tempo-espaço. Neste sentido, a
concepção de sujeito da enunciação é a que advém da psicologia, que enxerga o
sujeito como consciente do discurso que produz ou que detém o controle do
sentido ali fixado.
ORLANDI, E. P. (org.) et. al. Gestos de
Leitura: da história no discurso. 3. ed.
Campinas: Editora da UNICAMP, 2010. p. 99-115.
Capítulo VI – Sintaxe, discurso: do ponto de vista da
análise do discurso (MARANDIN, J. M.)
Este texto trata do questionamento de J. M. Marandin sobre o
lugar da sintaxe, como um modelo adequado de sintaxe, na Análise do Discurso, já
que esta, desde seu nascimento, faz oposição aos quadros teóricos anteriormente
vigentes - o Estruturalismo e a Gramática Gerativa, que assumem modelos
verticais da linguagem. Ao contrário destes, a AD concebe a linguagem como
heterogênea. No entanto, entendendo que os modelos estruturalista e gerativista
foram de fundamental importância para a consistência do modelo inaugural da AD
(1969), o autor discute como esse modelo foi se reestruturando, ao longo de
suas diferentes fases. Da noção de gramática de texto, do Estruturalismo, a AD
faz um triplo deslocamento: 1) ao invés de descobrir a
estrutura de um texto ou de vários textos, a AD propõe uma forma de conceber um
sistema de análise que seja aplicável a qualquer texto; 2) ao invés de
descobrir os constituintes de um texto, a AD propõe um processo de produção de
sentidos; 3) ao invés de se ater ao texto, a AD extrapola o texto, inaugurando
as noções de inter e intradiscursos. Da Gramática Gerativa, a AD faz seu
deslocamento em relação à concepção forma/sentido. Isso porque, para a AD, a análise
sintática é a principal ferramenta de observação dos efeitos discursivos. Portanto,
para além de ser um sistema de regras sintáticas a atuar no âmbito da frase, a
sintaxe é mediadora da relação entre forma e sentido, pois para a AD uma frase
não é um discurso e um discurso não é uma frase. Outra noção importante para a
AD é a de pré-construído. Diferentemente do pressuposto, que está na língua, na
estrutura, o pré-construído está na relação da língua com a história, no
interdiscurso, extrapolando a estrutura e não dependendo propriamente da
sintaxe. Concluindo, para a AD, a sintaxe ocuparia um lugar menos hierárquico e
mais dialógico na relação com outros elementos constitutivos do discurso.
Texto: Inês Confuorto
Revisão: Maria Dolores Wirts Braga
26 de outubro de 2012
Foram
discutidos três textos sobre Psicanálise e Educação selecionados pela Profa.
Dra. Maralice de Souza Neves, que apresentou alguns conceitos fundamentais da
Psicanálise, fazendo correlações com conceitos da Análise de Discurso de
inspiração pecheutiana. O foco principal do início da reunião foi a discussão
sobre concepções de sujeito e de linguagem nessas duas linhas teóricas, o que
possibilitou uma reflexão sobre pontos convergentes e pontos divergentes.
Algumas
noções da Psicanálise recorrentes no discurso da Educação são o impossível do ensinar e a transmissão. Essas noções são abordadas
por Leny Magalhães Mrech no texto Mas,
afinal o que é educar? (In: MRECH, L. M. (org.) O impacto da psicanálise
na educação. São Paulo: Avercamp, 2005. p. 13-31), em que busca interpretar
esse impossível do ensinar como uma
necessidade incessante de investigar e de perguntar, e não como um entrave ao
ato de ensinar (e de aprender). Esse “impossível” poderia ser compreendido como
um movimento constante de convocação do sujeito (professor e aluno) para se
colocar na posição de desejo de saber.
Assim, o ato educativo implica um processo de transmissão em que estão em jogo três aspectos: a importância do
conteúdo (disciplinas); a necessidade de privilegiar o inconsciente; e a
importância de tecer um laço social com o mundo. Porém, um dos principais
questionamentos da autora está relacionado à contradição entre essa visão de
educação como contingência que busca contemplar o sujeito em sua singularidade
e as demandas da sociedade contemporânea que têm incitado cada vez mais à
formação de um “mercado de saber” ajustado a propostas didático-pedagógicas
normativas e homogeneizantes.
Ao
analisar o papel da Educação pelo viés da Psicanálise em seu artigo Ensinar: do mal-entendido ao inesperado da
transmissão, João Batista de Mendonça Filho (In: LOPES, E. M. T. et al.
(org.) A psicanálise escuta a educação. 2ed.
Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 71-106.) sintetiza o principal objetivo da
Educação: levar à produção de uma relação com o saber, o que implica o transmitir e não simplesmente o informar. A construção dessa relação com
o saber envolve a desconstrução de determinadas noções pregadas pelo discurso
educacional, tais como: o saber como algo completo a ser adquirido, a evidência
da linguagem como comunicação e o sujeito como consciente. O autor indica um
caminho possível para produzir deslocamentos desse lugar de “informação” para
um lugar de “transmissão”: o discurso
amoroso como espaço de relação com o
outro, como espaço de relação entre dois desejos – o de ensinar e o de saber.
No artigo De
que sofrem as mulheres professoras? (In: LOPES, E.
M. T. et al. (org.) A psicanálise escuta a educação. 2ed.
Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 195-223), Margareth Diniz aborda o processo
histórico de feminização do campo educacional que deixou marcas importantes nos
sentidos sobre a profissão docente produzidos nas/pelas professoras em suas
práticas pedagógicas. Tais representações profissionais e culturais afetam
igualmente seus desejos e suas subjetividades, produzindo um mal-estar
constante – um sintoma, definido por Diniz como a expressão de um conflito
inconsciente que se manifesta no corpo – geralmente observado no discurso da queixa. Um dos caminhos
apontados pela pesquisadora e que poderia viabilizar possibilidades de
deslocamento estaria no próprio espaço educacional-institucional, onde as
professoras poderiam ressignificar suas práticas pedagógicas e aprender a lidar
com o sintoma, minimizando, assim, talvez, seu sofrimento.
Texto: Laura Fortes
Revisão: Ana Paula Faria
23 de novembro de 2012
Iniciamos a
discussão com os textos de Marcelo Ricardo Pereira, A orientação clínica como
questão de método à psicologia, psicanálise e educação, e de Kátia Mariás Pinto
e Ana Lydia Bezerra Santiago, A conexão do desejo à escola: do “não quero saber
disso” ao “o que posso saber disso”, ambos do livro A psicanálise escuta a educação: 10 anos depois (Belo Horizonte: ed.
Fino Traço, 2012). Ambos os textos defendem a atitude clínica do analista e do
psicólogo nas instituições educacionais, argumentando que a pesquisa é método
(grupos de investigação, conversação, relatos etc.) e intervenção via
interpretação, objetivando deslocamentos subjetivos. Retomamos do primeiro
texto os quatro episódios relatados pelo autor, lembrando que Pereira denomina
atitude clínica a aplicação do dispositivo de princípio freudiano: 1. Fazer
falar, 2. Fazer repetir, 3. Fazer perlaborar (ou elaborar para si). A
intervenção sugerida no texto de Pinto e Santiago considera o conceito de
conversação, como um método de falar de si para nomear seu desejo, evitando
tamponá-lo. A necessária intervenção deve, pois, levar ao questionamento,
visando à elaboração e não a um conteúdo pré-estabelecido; em outros termos,
levar à histerização: perguntar, inquirir, dialogar, sem soluções construídas,
mas que possam, a partir daí, entrar em processo de construção pelo próprio
sujeito.
O segundo texto discutido
encontra-se no livro O impacto da
psicanálise na educação, São Paulo, ed. Avercamp, 2005. Leny Magalhães
Mrech, em seu texto O impacto do terceiro ensino de Lacan: novas contribuições
para algumas articulações possíveis entre psicanálise e educação, nos lembra
que a psicanálise lacaniana define ensino como sendo aquilo que não se sabe e
que não se pode saber; ou seja, é o ato de ensinar “a partir de um ponto
desconhecido: um ponto de não-saber” (p. 144). Conforme diz o título de seu texto, Mrech considera três
fases nos ensinos de Lacan. O primeiro ensino, segundo a autora, é marcado pelo
Outro como sendo da ordem da intersubjetividade e não exatamente, ainda, da
ordem do simbólico. A passagem à concepção de Outro como pertencente ao
simbólico marca, ainda para Mrech, o segundo ensino de Lacan. Nesse segundo
ensino, portanto, Lacan localiza o Outro no simbólico, afastando-o da ordem da
intersubjetividade e alocando-o no plano da intrasubjetividade. É nesse segundo ensino que Lacan divide seu
interesse sobre o conceito de Outro, que é da dimensão da cultura, com o
conceito do pequeno a, que é da dimensão do particular, do singular. Esses dois
ensinos, concluímos, referem-se ao primado do Simbólico, na sequência SIR. A
inversão dessa sequência para RSI, com o primado do Real, só ocorrerá em seu
terceiro ensino, em que Lacan aprofunda a questão do gozo do sujeito com a
alíngua. A alíngua pode ser entendida como a língua – com seus sons, palavras
que podem ser inventadas e linguagem que se deixa re/desestruturar – que oferece
a possibilidade de o sujeito gozar com ela. Mrech nos lembra que é nesse
terceiro ensino que Lacan associa o gozo com o registro do Real, sendo ambos
não simbolizáveis, sem sentido. Em seu terceiro ensino, Lacan se debruça sobre a concepção do nó borremeano,
representando com essa configuração os três registros do inconsciente: Real,
Simbólico e Imaginário. Nesse ensino, Lacan acrescenta o quarto elo ao nó: o
sinthoma, como sendo a construção singular de cada sujeito que irá amarrar os
três outros elos. Por fim, Mrech enumera sete possíveis contribuições dos
ensinos da psicanálise à educação: 1. Não há saber completo, ilimitado e sem
furos. 2. O saber está atrelado ao inconsciente e, portanto, é necessário que o
próprio sujeito elabore seu saber singular. 3. É preciso que o professor
conceba o saber a partir da cultura, considerando seu aspecto relacional. 4. É
fundamental que o professor desconfie e se distancie dos estereótipos de
professor propostos pela sociedade; sendo o sujeito da psicanálise um falasser
(ser na fala), sua imagem é construída a cada momento por seu discurso,
aproximando-se e afastando-se de imagens socialmente pré-definidas de
professor. 5. O professor deve também se afastar dos sentidos que lhes são
oferecidos como verdades sobre os mais variados aspectos de sua vida
profissional; há sempre um resto que escapa a todo saber, a toda verdade. 6. O
professor deve atentar para a mudança que sofreu: de ser percebido como o Outro
da cultura à posição de objeto causa do desejo, ou objeto pequeno a, como algo
a ser olhado, ouvido, sugado, excretado e morto. 7. É importante lembrar,
também, que tanto o desejo de saber quanto a recusa ao saber estão relacionados
a possíveis formas de gozo do sujeito. Mrech nos lembra ainda que é necessário
considerar que o saber consciente apresenta limites ultrapassáveis apenas pelo
empenho do saber inconsciente (o saber que não se sabe), observar o aluno sem
compará-lo e aceitar o ato de ensinar como um encontro falhado.
No quarto capítulo desse mesmo
livro, sob o título Subversão docente: ou para além da “realidade do aluno”,
Marcelo Ricardo Pereira fala da posição
que o professor é chamado a ocupar diante do inesperado ou, no caso relatado no
texto, diante da singularidade do aluno.
O autor questiona o esvaziamento a
priori do saber do mestre, isto é, quando o professor se mostra como
incompleto, assumindo o lugar da falta, como estratégia para que o aluno se
posicione como saber. Para Pereira, esse esvaziamento da mestria como
estratégia é uma interpretação que se transformou em jargão, mas que em nada
favorece o aprendizado por ser ainda desejante de levar o aluno a um saber já estabelecido.
Após apresentar os quatro discursos de concepção lacaniana, o autor argumenta
sobre como a subversão faz girar os discursos, contribuindo com a não fixação
desses discursos e, assim, consentindo com seus furos, é possível observar as
singularidades. Para o autor, é preciso que o professor ocupe um lugar que lhe
permita inventar caminhos, possibilitando ao aluno sua identificação simbólica.
Finalizamos o encontro com a
apresentação realizada pela Profa. Maralice de Souza Neves (UFMG) de
seu texto Discurso, psicanálise e o cinema no ensino de língua estrangeira.
Nesse texto, a autora propõe uma abordagem discursivo-psicanalítica de filmes
para o ensino de língua estrangeira, neste caso, o inglês. Para essa abordagem,
Neves retoma o conceito lacaniano de mulher como construção identitária e
propõe uma atividade didática com base no filme Mary e Max: uma amizade
diferente (ELLIOT, Adam; 2009). A atividade didática utiliza-se da tradução,
explorando o gênero legendagem, para trabalhar concomitantemente a percepção da
construção da subjetividade de Mary. No filme, temos acesso à biografia da
personagem Mary desde antes de seu nascimento até a idade adulta. Tal percurso
nos permite perceber a construção identitária da personagem através do trabalho
dos significantes como efeitos de predicação. Isto é, os dizeres que predicaram
Mary durante sua vida (olhos cor de poça de lama, marca de nascença cor de cocô
etc.) marcaram seu inconsciente e foram, por ela, transformados em sintoma que
significou em seu corpo, constituindo, por fim, sua singularidade.
Texto: Dolores
Revisão: Maralice
07 de dezembro de 2012
AUROUX, S. A hiperlíngua e a externalidade da referência. In: ORLANDI, E. P. (org.) Gestos de Leitura: da história no discurso. Campinas: Editora da UNICAMP, 2010. p. 241-251.
AUROUX, S. A hiperlíngua e a externalidade da referência. In: ORLANDI, E. P. (org.) Gestos de Leitura: da história no discurso. Campinas: Editora da UNICAMP, 2010. p. 241-251.
Neste texto, o linguista Auroux defende que uma língua não deve ser definida pela união autônoma de seus elementos (gramática e dicionário). O autor traz a importância do espaço-tempo para o funcionamento da linguagem. Esse elemento histórico e dinâmico relacionado à linguagem é denominado por Auroux de hiperlíngua. Acrescenta o autor que é na hiperlíngua que os sujeitos se compreendem e que é impossível aprender a falar uma língua sem aprender a se movimentar numa hiperlíngua.
O texto Falta do dizer, dizer da falta: as palavras do silêncio (in ORLANDI, 2010, p. 253-276) consiste em uma publicação parcial da pesquisa desenvolvida por Authier-Revuz em sua tese de doutorado. A autora defende o princípio da nomeação como o ponto onde a língua falha. Para isso, ela discorre sobre a não coincidência entre a palavra e a coisa e faz a distinção entre dois tipos de falta: a falta da imperfeição e a falta da ausência no dizer. Em seguida, a autora traz análises de expressões que acompanham o fio discursivo (“por assim dizer”, “eu não ousaria dizer”) e que ilustram a falta característica do discurso e as tentativas do sujeito enunciador de não se comprometer com aquilo que diz. Um aspecto destacado do texto é a concepção do silêncio como uma falta que atravessa e constitui a nomeação. Além disso, a utilização de corpus coletado a partir de situações reais foi levantada pelo grupo como um aspecto típico de Authier-Revuz, o que gera maior envolvimento do leitor com as análises propostas por ela.
Elaborada por Andréia Cristina Alves
Revisada por Inês Confuorto
15 de março de 2013
Na
primeira parte da reunião, discutimos o texto “O fascínio pelo gozo do nativo
da Língua Estrangeira” elaborado pela Profa. Dra. Maralice de Souza Neves como
parte de seu projeto de pesquisa de pós-doutorado (em andamento) intitulado Discurso e interculturalidade no ensino de
inglês como língua estrangeira e orientado pela Profa. Dra. Marisa
Grigoletto desde 2012. O texto em questão trata dos processos identitários produzidos
na relação dos professores da rede oficial de ensino com as Fulbright ETAs (English Teaching Assistants)
participantes do projeto ContinuAÇÃO Colaborativa (ConCol – projeto de Educação
Continuada coordenado pela Profa. Maralice na UFMG). Diversas questões foram
levantadas no sentido de buscar um espaço de interlocução interessante com os
posicionamentos da professora em seu texto e, ao mesmo tempo, dialogar de
alguma forma com seu processo de escrita. Assim, aprofundamos a discussão sobre algumas
temáticas problematizadas em seu texto, das quais destacamos três:
- As representações dos sujeitos-professores sobre as Fullbright assistants parecem funcionar por meio de uma discursividade que estabelece uma dicotomia entre “falante nativo” e “falante não-nativo”, mas a especificidade do corpus de pesquisa parece apontar para uma questão que vai além dessa dicotomização: dado o efeito de “fascínio” gerado pela presença do nativo estadunidense (e não simplesmente pela proficiência linguística de um falante), poderíamos dizer que existem nativos “mais nativos” que outros?;
- A explicitação da crítica feita a algumas categorizações e nomeações produzidas por discursos da linguística, tais como o “círculo concêntrico” de Kachru sobre a expansão da língua inglesa e o termo “língua franca”. Tais categorizações constituem construções político-ideológicas sobre a língua inglesa que devem ser desconstruídas na análise discursiva, como propõem Sinfree Makoni e Alastair Pennycook no livro Disinventing and reconstituting languages (2007). Assim, poderíamos perguntar: que conformação ideológica opera nesse termo “língua franca”? Como se deu a construção histórica desse termo?;
- A delimitação de duas dimensões na análise do corpus: 1) a dimensão do coletivo, que envolve a desconstrução da ideia de língua como meio de comunicação “sem falhas”, cuja ilusão se produz e se reforça por meio das interações sociais; 2) a dimensão do desejo, que envolve o gozo na outra língua e ocorre de modo singular.
Na
segunda parte da reunião, discutimos dois artigos do livro Análise do
discurso: heranças, métodos e objetos, organizado por Vanice Sargentini e Maria do Rosário Gregolin e
publicado pela Editora Claraluz em 2008: o artigo de Jean-Jacques Courtine
intitulado “Discursos sólidos, discursos líquidos: a mutação das
discursividades contemporâneas” e o artigo de Maria do Rosário Gregolin
intitulado “Courtine e as metamorfoses da Análise do Discurso: novos objetos,
novos olhares”.
A
discussão dos textos foi pautada numa importante ressalva sobre o percurso
teórico de Courtine: ele partiu da noção de semiologia
histórica para iniciar uma análise do discurso político, dedicando-se
posteriormente ao estudo da história do corpo e do rosto pelo viés da antropologia cultural. Portanto,
Courtine não se encontra mais filiado à Análise do Discurso, embora mantenha
firmemente uma posição teórica (e política) por meio da qual é possível abordar
a historicidade de seus objetos de
estudo. Assim, em seu artigo, Courtine lança mão das reflexões de Bauman sobre
a “modernidade líquida” para analisar as discursividades produzidas pelas novas
ideologias da sociedade de consumo. Aponta também para a necessidade de
analisar a construção de uma “memória das imagens” a partir de um dispositivo
de análise que ele denomina “intericonicidade” (COURTINE, 2008, p. 17). Por
fim, trata brevemente as discursividades da mídia, as “mídias líquidas”, que
colocam em circulação sentidos produzidos pela contraditória relação entre
“diversão e advertência” (divertissement
et d’avertissement).
No
artigo de Gregolin, a semiologia histórica é tida como um conceito crucial
desenvolvido por Courtine, o que, como já mencionamos, não corresponde às
contingências de seu percurso teórico. Assim, não nos detivemos na discussão
desse ponto, mas procuramos focalizar outra questão trazida pela autora em seu
artigo: a importância da inovação das análises de Courtine por inaugurarem corpora configurados por materialidades
não-verbais. Dentre essas materialidades, ganhou destaque a fala pública, à qual Courtine dedicou
grande parte de seu estudo, tecendo reflexões a respeito de uma aproximação
entre as línguas de madeira (línguas
da política e do direito; línguas duras e herméticas) e as línguas de vento (línguas da publicidade; línguas flexíveis e
fluidas). Gregolin destaca ainda conceito de intericonicidade – formulado por Courtine a partir da noção de memória discursiva –, do qual lança mão em
suas análises da história do corpo, dispositivo que possibilitou a construção
de uma genealogia do olhar e da visualidade e, consequentemente, suas
implicações nas representações dos sujeitos.
Texto: Laura Fortes
Revisão: Ana Paula Reis Pitombeira
05 de abril de 2013
GRIGOLETTO, M. Entremeios da AD: os desafios de novos objetos. In: SARGENTINI, V.; GREGOLIN, M. R. Análise do Discurso: heranças, métodos e objetos. São Carlos: Claraluz, 2008.
Neste texto, a autora discute a relação do sujeito com a língua (estrangeira/ materna/ outras) sob o viés da Análise do Discurso (AD), ciência de entremeio – Língua, História, Psicanálise. Busca uma aproximação da AD com as teorizações de Foucault, relativamente aos modos de subjetivação, e com a Psicanálise, relativamente ao inconsciente e ao sujeito da linguagem. Para discutir a aproximação/ diferenciação entre as áreas, a autora elege o conceito de subjetividade na relação do sujeito com a língua.
Das diferenças, a autora aponta o foco de cada uma dessas áreas de conhecimento: para a AD, interessa a constituição do sentido e do sujeito na história; para Foucault interessa o sujeito e o poder, em especial os diferentes modos pelos quais os seres humanos se transformam em sujeitos (modos de subjetivação: ótica objetificante, práticas classificatórias e as técnicas de si); para a psicanálise, importam o inconsciente e o sujeito da linguagem.
Um ponto de aproximação entre essas áreas, no entanto, segundo a autora, é que todas elas se fundamentam em um conceito de sujeito que não é o centro de onde emanam os sentidos: é, ao mesmo tempo, um indivíduo interpelado em sujeito pela ideologia, um sujeito singular que se manifesta nos lapsos do inconsciente e um sujeito constituído por determinadas formas de poder. A intersecção entre as três abordagens permite, diz a autora, uma apreensão e uma compreensão mais definidas do objeto da AD: a língua.
Um enfrentamento tenso, no entanto, está no fato de se trabalhar, teórica e analiticamente, o discurso produzido por um sujeito do desejo inconsciente (p. 53). Este é, pois, o desafio proposto pela autora.
Conclui a autora que aproximar as diferentes áreas (teorias) é:
- Tentar promover deslocamentos na teoria do discurso demandado pelo objeto em questão – a relação do sujeito com as línguas – sem, no entanto, deixar de lado o incômodo de teorias que se estranham [...] (p.56).
- Considerar a relação do sujeito com as línguas na sua existência multifacetada – atravessada por diferentes filiações do sujeito a diversos discursos e que formam o seu imaginário sobre as línguas [...] (p. 56).
- Considerar que a língua materna exerce a função de estruturação simbólica pela falta [...] e pelo desejo das línguas estrangeiras como (possível?) lugar de liberdade de dizer [...] (p. 56).
- Levar em conta que o processo de individualização-normativização assujeitam os corpos, por meio de tecnologias de dominação, provocando a autosubjetivação dos indivíduos (p. 56).
Texto: Inês Confuorto
Revisão: Laura Fortes
19 de abril de 2013
No início deste encontro, a Profa
Dra Marisa Grigoletto nos mostrou sua tese de livre docência intitulada “A
Língua Inglesa em Representações: Imagens da língua nos discursos
político-educacional e midiático e reflexos em modos de subjetivação”. A defesa
está prevista para o primeiro semestre deste ano. Logo a seguir, demos início à
discussão do texto “Discurso e Imagens: Para uma arqueologia do Imaginário, de
J-J Courtine , entrevista concedida pelo autor aos organizadores do II CIAD e
publicada no volume “Discurso, Semiologia e História”, organizado por V. Sargentini,
L. Curcino e C. Piovezani (São Carlos: Claraluz, 2011). Nesta entrevista,
Courtine relata como nasceu a ideia de uma “semiologia histórica”,
permitindo-lhe uma mudança de perspectiva teórica, nascida da necessidade de
examinar a relação entre corpo e discurso nas formas da fala pública.
“Língua de madeira” e “língua de
vento” foram conceitos retomados do texto para a discussão sobre práticas
políticas. Sobre os discursos políticos, observamos que estes foram adquirindo
outras nuances e consistências no decorrer da História. Hoje, por exemplo, os
políticos falam para a mídia. A lembrar, o discurso recente do presidente
Obama, após o atentado da Maratona de Boston.
A semiologia de Courtine traz a
importância de abarcar também o não-verbal no processo interpretativo. Se há
sempre uma interdiscursividade por meio da qual um discurso qualquer faz
sentidos, o mesmo se aplica às imagens. Se uma imagem significa é porque remete
a uma rede de imagens. Há discursos e imagens já lá, o que remete aos conceitos
de interdiscurso e intericonicidade, este último proposto pelo
autor.
O texto seguinte em discussão foi
o de Eni Orlandi, “Violência e Processos de Individualização dos Sujeitos na
Contemporaneidade”, parte do volume “Análise do Discurso – Heranças, métodos e
objetos”, organizado por V. Sargentini e M.R. Gregolin (São Carlos: Claraluz,
2008). Nesse artigo, a autora toma como corpus para análise, alguns enunciados
presentes em materiais sobre violência arquivados no Centro de Documentação
Urbana (Labeurb/Unicamp), em especial, do livro Falcão, meninos do tráfico (2006) e também algumas falas do Marcola
(do PCC) e de alguns dizeres do PCC publicados em jornais e revistas, assim
como mostrados na televisão, e pichados sobre telhados dos presídios. Com
vistas a tratar de como se individualiza o sujeito contemporâneo, Orlandi
mostra que esse sujeito, em especial, “se debate em uma
falta de sentidos que vem do fato de que o Estado falha como lugar de
articulação simbólica (p.125).” A autora retoma uma distinção feita em trabalho
anterior (Orlandi, 1992) entre “não –sentido” – que é o não-experimentado, o
que ainda não significa, mas por uma necessidade histórica poderá vir a significar
– e o “sem-sentido”, que é aquilo que já fez sentido e fica apenas em um imaginário
imobilizado incapaz de significar. Aquilo que já não significa mais. Tornou-se
in-significante. Nesses termos, segundo a autora, “encontrar um lugar para o
sujeito é encontrar um sentido e tornar possível o movimento de sua
individualização: poder estar; instalar(-se em) uma situação. Passar do não
sentido ao sentido possível, de modo que
o irrealizado advenha formando sentido do interior do não-sentido (Pêcheux,
1975)” p.130. Segundo a autora, algo impossível para os meninos do tráfico
nesse momento, face ao sem-sentido em que estão mergulhados.
Por fim, discutimos o texto de
Amanda Eloina Scherer, “Dos domínios e das fronteiras: O lugar fora do lugar em
outro e mesmo lugar”, também integrante do volume acima citado “Análise do
Discurso – Heranças, métodos e objetos”, organizado por V. Sargentini e M.R.
Gregolin (São Carlos: Claraluz, 2008). Nele a autora discorre sobre os domínios
e fronteiras da Análise do Discurso Brasileira; como se produz o lugar no campo
teórico da AD no Brasil. Inicialmente, segundo ela, a AD de linha francesa tem
um predecessor em uma ordem interna de circulação; mas, aos poucos, “pelo
próprio da AD de construir interpretações,
vai-se construindo à nossa cara. Terra nossa, território nosso e domínio de memória brasileiro, com as nossas diferenças, com um lugar
físico e simbólico, (pela própria história da instituição): o Departamento de
Linguística e o Programa de Pós-graduação da Unicamp. Ali, a partir da filiação
teórica de Michel Pêcheux, o domínio de memória instala-se e institucionaliza-se
a partir do trabalho e em torno da pessoa de Eni Orlandi, com projeto de
pesquisa próprio à realidade brasileira.”(p.136). Para Scherer, a AD, até então
tida como AD de linha francesa, torna-se a Análise de Discurso Brasileira.
Texto: Débora Baghin Spinelli
Revisão: Dolores Wirts Braga
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